Segundo Sol…

Maio 27, 2008

O coração estava cansado e pulsava somente porque esse movimento era involuntário. Voluntário fosse, há muito não bateria. Agora, após batalhas perdidas, ele ainda lutava para manter um pouco de si e não ser fagocitado pela razão. Sabia que era melhor render-se, doeria menos, mas ainda assim… o problema de Coração é bater pelas causas erradas. Tão involuntárias quanto os batimentos as lágrimas começaram a rolar. Motivo?! Todos e nenhum. Apenas rolavam pra desoprimir um pouco o peito, talvez quem sabe aliviar a pressão da cabeça, grande e pesada como nunca. Apesar disso, certo alívio existia. Alívio pelo fim da indefinição. Aquele alívio supremo que só as certezas podem dar. O paciente não estava mais entre a vida e a morte. A agonia de corredores não existia mais. A morte selou de vez todas as dúvidas. Numa curva, ela viu. Redondo, dominando um céu de tons azuis e róseos, um Sol de fogo q morria com a tarde. Intenso. Forte. Grande. Rei. A imensa beleza qure precede o fim. E então percebeu… um dia, seria capaz de ver a beleza contida no seu fim.

Aquele espetáculo de púrpuras e ouros era tão belo q dava vontade chorar. Não segurou uam lágrima sequer. Deixou o sal molhar o sorriso q aquela beleza evocou. Tirou os óculos e olhou aquilo que parecia tão real e tão próximo. O coração cantarolou

“Assim que quer, assim será
Eu vou pra não voltar
Toma este anel que é pra anular
O céu, o sol e o mar
Eu não queria ir assim
Tão triste, triste…
Vem dizer adeus ao que restou de quem um dia foi feliz”

Ah… aquela agulhada no peito. Funda. Mas de repente soube: aquele sol era Apolo, lembrando à ela q o mais importante não era a morte, mas o renascimento. Q a morte podia ser bela e isso não a impediria de retornar, com todo fulgor. Era só uma questão de seguir a própria natureza. Não construir outra pira de sacrifício… afinal, ela ainda soltava fumaça e era quente ao toque da última imolação, mas de tecer lentamente seu casulo. Fios delicados de seda, larva frágil e pequenina… Chronos se encarregaria do resto.

Então ela desceu lentamente os degraus do ônibus. Subiu também devagar os degras da escada. Aspirou o sutil aroma de eucaliptos. E foi viver a realidade que existia no agora e que não podia esperar. Business first.

Romãs…

Maio 20, 2008

Não sei se foi por causa da romanzeira, igual a que tinha no seu jardim na minha infância. Ou se foi pelo dia que, mesmo ensolarado, não conseguiu me aquecer. Se foi a gripe, que deixou meu nariz vermelho e a cabeça pesada. O fato é q eu lembrei.

“- Vai com Deus, Ninha! Nossa Senhora te abençoe! Boa viagem!”

Foi a última coisa que você me disse. Eu fui pra casa, sob toda a proteção divina invocada por você, e nunca mais conversamos. Às vezes parece que foi ontem, às vezes parece que já se passou uma eternidade. O calendário disse hoje que faz um ano que você se foi.

Saudades de você, viu Tia Glória… Minha eterna madrinha de uma crisma que nunca aconteceu. Sua risada faz falta nas reuniões de família e eu não fui a nenhuma festa deles desde que você resolveu voar. Não dá para imaginar todos os Freitas juntos em vc. Eu não consigo. Mesmo.

Você, que guardava o cigarro aceso no bolso pra não me desagradar. Q fazia as melhores empadinhas do mundo e ainda me deu as forminhas e ensinou a massa, para que eu pudesse fazê-las também. Lembro de você na cozinha de casa, rindo e contando casos enquanto pincelava os quitutes com gema de ovo e café. Ainda tenho o timbre da sua voz nos ouvidos. “Ninha!” Agora quase ninguém me chama assim. Todos se foram ou não os vejo mais: papai, você…

Tá todo mundo longe. Até a mamãe, que tá perto qndo comparada a vcs, tá longe demais pra um abraço. E isso pesa. Depois de vc eu não sei mais perder nada nem ninguém. Tá em paz, né Tia?! Eu sei q tá. E eu tô aqui, cansada dessa batalha, mas ainda com as bençãos de Deus e Nossa Senhora, como vc mandou! E agora vendo mais uma estrelinha no céu… mas admito que preferia vc aqui.

Ah, as romãs nunca mais serão as mesmas…

A day…

Maio 14, 2008

Andou pensando nos resultados de todas as suas intuições. Era incrível como nenhuma delas estava errada. Os resultados, bem, ela sempre pôde antecipá-los e por muitas vezes, fechou os olhos e não quis. Sabia q era uma opção. Acertada ou errada, era outra história. Agora, se deparva mais uma vez com a dúvida. Horas e horas pela frente e uma preguiça enorme diante do computador e das tarefas a serem realizadas. Preguiça da prova q ela sentia q não ia acontecer, preguiça dos ônibus lotados, preguiça da picaretagem, preguiça até dela. Aguardava ansiosa o momento de ler por pura fruição, de escrever por impulso, de mandar ao inferno todas as algemas e correntes. Vontade de sair por aí, aproveitando o clima q começava a ficar do jeito q ela gostava. Vontade de tratar o mundo como quem chupa manga madura, deixando o caldo escorrer pelos dedos e lambuzar rosto e roupa daquele amarelo intenso. Vontade de perfumes e de um dia pra fazer o q quiseesse, como quisesse, com quem quisesse. Um dia pra dizer “apanhei-te arquiteto, nunca mais voltarás a construir”. Um dia. É, ele ia chegar. Mais cedo ou mais tarde, ia. Agora, restava almoçar. E cuidar das obrigações do dia.