Miracle…

Agosto 24, 2007

As pupilas dilataram-se e os olhos brilhantes examinaram curiosos os brotos verdes da calandivia no vaso a sua frente. Pequeninos. Pareciam extremamente frágeis. Descobriu, não sem indignação, que um deles fora quebrado. “O que custa tomar um mínimo de cuidado?” Segurou a haste entre os dedos enquanto observava melhor cada folhinha. Considerou que, mesmo prematuro, ele poderia sobreviver. Com muito cuidado abriu um buraquinho na terra fofa do vaso e com ainda mais cuidado, plantou o brotinho. Cogitou se ele precisaria ou não de água e na dúvida, borrifou apenas um pouquinho.  Colocou o vaso em um local iluminado e, surpresa com a queda da luz, olhou as horas.  Já estava atrasada.  Pegou a bolsa e fechou  a porta. Desceu as escadas correndo.  Pelas próximas semanas cultivaria um pequeno milagre.   

Rangendo os dentes…

Agosto 21, 2007

A vocação para o desafio nasceu com ela. Estrategista. Só. Como os grandes líderes. Faro para identificar aliados e inimigos. Bastaram alguns click’s e toda a teia cibernética escancarou-lhe um passo descuidado, porém. Sentiu-se traída. Em seu esforço. Em sua confiança. “Troféu Inocência Cega”, pensou. O sangue fluiu veloz em cada veia, cada artéria. A respiração, rápida, quase arfante. Cabelos eriçados. Dentes cerrados. Unhas como garras. A mais perfeita transmutação de humano em fera. Em um instante, um animal selvagem. Ferido. Pronto para o ataque. Decidido a retalhar. Sedento de vingança. Disposto a levantar seu ódio como um archote e com ele incendiar o que lhe estava a frente. Ela sabia. Viu claro como um cristal o quanto todos os adiamentos se constituíam pequenos pedaços de uma trama. Sórdida. Súbito, a consciência do tamanho de sua guerra. Percebeu que não adiantaria disparar de uma só vez toda a artilharia. Aquele seria um processo lento. E ela, a impaciência por sobrenome, reinventava-se para poder esperar. Faltava pouco agora. Menos de quatro meses. Bastava desejar. E a vingança seria como häagen dazs, em pleno verão brasileiro.

Travel…

Agosto 16, 2007

Poucas vezes antes ela se deparou tanto com os retornos, as viagens e as reinvenções. Parecia que milhares de fênix tinham reunido-se em congresso para decidir os rumos do renascimento. Ela era uma delas, mas se via perdida naquele momento. As asas não estava cortadas, mas havia certo receio em voar. Olhar o céu. Sentir o vento. Retornar sempre pareceu uma solução segura. Revirou guardados. Numa busca alucinada de si, por si e para si. Sem saber como, por onde, ou mesmo se devia começar sua pira. De repente, um recorte de jornal. Antigo. Perdido quase entre os muitos outros papéis. Ela o chamou de poema, mas talvez devesse chama-lo “Destino”. Sim, alguém -”Affonso Romano de Sant’anna”- tinha escrito aquele que poderia ser um manifesto de Fênix. Ou de Ulisses. E cada palavra queimou, e deixou sua marca indelével na alma:

“Como voltar
depois de Itaca
das sereias
dos cíclopes
de tanto assombro
de tanto sangue
na espada?

Como voltar
se aquele que partiu
partiu-se
e voltará com os fragmentos
do excesso?

Não há retorno.
Há outra viagem
diariamente urdida
dentro da viagem
antiga.

Embora o caminho da volta
seja percorrido
ninguém retorna
apenas volta a viajar
no espaço anterior
estranhamente
familiar.

Como se o regresso
fosse acréscimo
e o viajante descobrisse
que é atrás
que está a fonte
e na alvorada
o horizonte
não há retorno.
Há o contorno
do próprio eixo
o tempestuoso
périplo do ego
um diálogo de ecos
como quem
tenta
encaixar
diferentes rostos
no mesmo espelho.

Por isto, o retorno
inelutável
é perigoso
exige mais perícia
que na partida
mais destreza
que nos conflitos
pois o risco
é naufragar
exatamente
quando chegar
ao porto.”

E ela soube exatamente que seu destino era a tempestade em alto mar, e não a (in)segurança do porto ou do pouso. Alguns barcos parecem negar-se a ancorar… certos pássaros devem passar a vida cortando o vento, desafiando a gravidade e a linha do horizonte… principiou sua pira.

Fabulous…

Agosto 10, 2007

Ela acordou com a sensação de que passava muito do meio dia. Mas não. Apesar de sentir nitidamente que tinha dormido um dia inteiro, ainda eram apenas onze horas. Nem frio excessivo ou calor sufocante. Uma réstia de Sol se infiltrava graciosa por uma fresta da cortina e, alheio a toda balbúrdia dos carros, um passarinho gorjeou. Ela sorriu. Sentia-se muito bem naquele despertar. Remorso de nada. Medo nenhum. Dó de ninguém. Lembrou-se de uma amiga e riu sozinha. Levantou-se de um salto e correu para a janela. Como em um clichê de filme hollywoodiano escancarou a cortina e fechou os olhos ofuscada pela luz. Sentiu um calor bom e deixou-se ficar de olhos cerrados apenas largarteando. Um sorriso felino brincou nos lábios. Listou mentalmente tudo que ainda teria que fazer naquele dia e constatou que seria capaz, sem muito esforço. Sentiu que merecia um doce, mas ele poderia esperar. Tomou um breve desjejum e foi para o banho. Até a temperatura da água pareceu perfeita. Saltitou feliz entre os respingos que foi espalhando na saída do chuveiro e comemorou. Aquele dia, apesar de começar pela metade, seria realmente fabuloso.

Então ela creu imposssível dormir naquela noite sem derramar uma lágrima sequer. Mas elas teimavam em apenas oprimir o peito e recusavam-se a vazar. Decididas a não permitir que sua descompressão aliviasse todo aquele peso/espasmo que ia do esôfago ao estômago. Sentiu a garganta queimar numa sede tantálica que água alguma aplacaria. Sentiu vontade de gritar uma ordem imperiosa. “SOSSEGA!”. Mas impassível, o de dentro continuava, preso a um conflito silencioso consigo mesmo. Ventrebleu!!! Embora soubesse que há causas perdidas antes mesmo da declaração do veredicto, sua mente continuava elétrica, prisioneira no corpo extenuado. Ela era toda vísceras, que se retorciam e clamavam . Por/pelo quê, bem, isso ela não sabia. Percebeu, por fim, que de nada adiantaria a racionalização quando o mais profundo era mesmo a pele. Revirou-se na cama. E fez uma oração. Se algo, alguma coisa, alguém pudesse compreendê-la, com certeza seria sobrenatural. Mais importantes que as palavras, por vezes torrentes, por outras incontáveis, eram seus silêncios. E carne e osso não poderiam penetra-los sem sofrer os delírios da falta absoluta de ar ou do excesso dele. Era demais para um único dia. E ela estava exausta. Podia apenas esperar pela escuridão. Abençoada noite silenciosa, densa e indecifrável. Quando aproximava-se do nada, às bordas do poço negro da inconsciência, diferiu uma forma. A princípio vaga, depois nítida como um letreiro neon. M². Naquele momento nada poderia ser mais frágil e humano. Talvez por isso tão maldito. Mas permaneceria invisível a olhos pouco treinados. Sentiu-se cada vez menor. Uma luz de tungstênio em meio à Via Láctea. Adormeceu.